
Project Hail Mary: Livro e adaptação ao Cinema
Como fã assíduo de ficção científica, costumo iniciar a leitura de novos livros com natural curiosidade, mas também com algum ceticismo. No entanto, há histórias que nos prendem a atenção de forma imediata. “Project Hail Mary“, escrito por Andy Weir, foi uma dessas surpresas agradáveis. O autor, que já se tinha destacado com “O Marciano“, construiu aqui uma narrativa que combina suspense, uma dose equilibrada de humor e uma abordagem bastante fundamentada à ciência. A leitura cativou-me do início ao fim, mostrando uma história bem pensada sobre descoberta e cooperação.
A premissa central foi simples, mas muito eficaz. Acompanhamos Ryland Grace, o único sobrevivente de uma missão espacial de cujo sucesso depende a continuidade do nosso planeta. O obstáculo inicial é o facto de Ryland acordar a milhões de quilómetros de casa com uma profunda amnésia. Não sabe o seu nome, a sua profissão ou qual a verdadeira natureza da sua viagem. Com a companhia de apenas dois colegas de tripulação… falecidos, o protagonista tem de reconstruir a sua própria memória enquanto tenta desvendar como pode salvar a humanidade.
À medida que o seu passado regressa através de pequenos momentos de clareza, o personagem principal depara-se com um problema científico à escala global e com a dureza do isolamento no espaço. A evolução da história, especialmente quando o autor introduz novos elementos que nos fazem refletir sobre o nosso lugar no universo perante um desafio comum, torna a história difícil de largar. É um livro que vive da resolução lógica de problemas, algo que Weir sabe escrever e tornar acessível a quem não tem formação científica avançada, como é o meu caso.
Quando a adaptação cinematográfica foi anunciada, tive o habitual receio de quem gosta muito de um livro e teme ver a obra perder qualidade na passagem para o ecrã. Contudo, o filme cumpriu a promessa e não desiludiu. Realizado por Phil Lord e Christopher Miller, com argumento de Drew Goddard, a produção compreendeu a essência da história original e a ideia do autor. O resultado é um filme equilibrado, que respeita o material de origem sem perder a sua identidade enquanto obra de cinema.
A escolha do elenco revelou-se um dos pontos mais seguros da adaptação. Ryan Gosling assumiu o papel principal com bastante competência, conseguindo captar o pragmatismo e a vulnerabilidade que caracterizam Ryland Grace. É um desempenho sólido que, com naturalidade, vai na minha opinião, justificar a atenção e o facto de o filme poder vir a receber importantes prémios. Do lado técnico, o filme cumpre com rigor. O ambiente espacial ficou visualmente credível, enquanto a banda sonora acompanha de forma muito eficaz toda narrativa. No fundo, a adaptação de “Project Hail Mary” vai um pouco além da ficção científica tradicional. Acaba por ser um filme sobre a amizade, sobre a forma como lidamos com a solidão e sobre a coragem para fazer o que está certo em situações limite. Num panorama em que o cinema por vezes aposta em tons mais cínicos, esta história oferece uma perspetiva reconfortante, tratando-se de um trabalho de adaptação bastante competente.
Conseguir conjugar o lado técnico do livro de Andy Weir com a vertente humana das personagens foi um desafio considerável e conseguido. Na minha opinião, e olhando para os últimos anos do género de ficção científica, estamos perante o melhor e mais completo filme espacial desde o lançamento de “Interstellar“. É uma obra que faz justiça ao livro e que proporciona uma boa ida ao cinema. Fica a dica.
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