7 Abril, 2026 0 Comments

A Nikon e a exploração espacial da NASA

A minha relação com a Nikon é bem mais recente que a relação da Nikon com a exploração espacial. A diferença é enorme aliás, mais de 40 anos na verdade. A relação da Nikon com a exploração espacial remonta aos primórdios das missões tripuladas. Mais, a escolha da Nikon pela NASA, quer para a Estação Espacial Internacional (ISS) quer, mais recentemente, para a histórica missão Artemis II à Lua por exemplo, é o resultado de décadas de confiança, inovação e de uma capacidade ímpar para construir equipamento que resiste às condições mais extremas conhecidas pela humanidade.

A parceria começou na década de 1960. A NASA procurava equipamento fotográfico portátil capaz de suportar o ambiente rigoroso do espaço. A Nikon, com a sua reputação crescente em fiabilidade, foi selecionada como fabricante de câmaras de 35mm. Um dos primeiros e maiores desafios foi a lubrificação. No vácuo e sujeita a flutuações extremas de temperatura, a maioria dos lubrificantes evapora ou congela. A Nikon desenvolveu um lubrificante específico que não sofria os efeitos da brusca mudança de temperatura, da rápida aceleração ou do vácuo, um detalhe crucial que exemplifica o porquê de as câmaras Nikon terem estado a bordo de todas as missões espaciais tripuladas desde então.

Na ISS, por exemplo, as câmaras Nikon têm sido ferramentas de trabalho indispensáveis. Modelos como a Nikon F5 (usada desde 1999), a D2XS, a D4 e a robusta D5 têm sido utilizados diariamente. Não servem apenas para capturar fotografias espetaculares do nosso planeta e do cosmos, mas desempenham um papel vital na monitorização da própria estação. Os astronautas utilizam-nas para realizar inspeções visuais detalhadas dos painéis solares e do exterior da ISS, identificando necessidades de manutenção essenciais para a segurança da tripulação. A capacidade dos sensores Full Frame (FX) da Nikon lidarem com contrastes extremos e condições de pouca luz tornou-as na escolha óbvia.

A missão Artemis II, que levou astronautas a orbitar a Lua pela primeira vez em mais de 50 anos, contou uma vez mais com tecnologia Nikon. A NASA decidiu incorporar um misto de equipamentos comprovados e de última geração para documentar esta viagem histórica.

Embora tenha havido debates iniciais sobre a inclusão das confiáveis e já certificadas Nikon D5 DSLR, conhecidas pela sua robustez e por não possuírem lubrificantes ou componentes que reajam no ambiente da nave, a escolha final para a vanguarda da fotografia lunar recaiu sobre a Nikon Z9. A Z9, a câmara mirrorless de topo da Nikon, foi alvo de um Acordo da Lei Espacial (Space Act Agreement) com a NASA para apoiar a missão.

Para enfrentar os rigores do espaço, a Z9 a bordo da cápsula Orion que conta com um total de 32 câmaras, foi especialmente adaptada. A câmara e as lentes NIKKOR Z selecionadas integram o “HULC” (Handheld Universal Lunar Camera), um sistema que inclui um revestimento térmico especial desenhado para as proteger das imensas oscilações térmicas e da radiação intensa no espaço.


Porquê a Nikon? A resposta reside numa palavra e que me enche de orgulho pois sou utilizador da marca. Fiabilidade inquestionável. Numa missão espacial, onde o custo do erro é incalculável e o espaço de armazenamento é valioso, o equipamento não pode falhar. A NASA não escolhe a máquina fotográfica apenas pela sua resolução, mas pela sua capacidade de operar de forma consistente, quer seja no interior pressurizado da cápsula Orion ou nas condições extremas do vazio espacial, como eventuais EVAs ou no uso externo. O histórico da Nikon na ISS provou, década após década, que as suas câmaras cumprem os exigentes requisitos de engenharia.

A missão Artemis II não testou apenas os limites da exploração humana, testou também a capacidade humana de partilhar a experiência visual da nossa viagem de volta à Lua. E para garantir que a humanidade tem o melhor lugar na primeira fila, a NASA confiou, mais uma vez, na engenharia óptica de precisão da Nikon.

 

Últimas Imagens vindas da Artemis 2 através das objetivas da Nikon: Créditos NASA:

 

 

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7 Março, 2026 0 Comments

Poeiras do Saara voltam a ensombrar o céu

Começo por dizer que este texto vem com alguns dias de atraso. Ainda assim, lembrar que quem olhou para o céu principalmente no dia 4 de março, reparou que o azul deu lugar a um tom mais baço, por vezes até amarelado. Esta alteração não foi uma simples ilusão de ótica, mas o resultado de uma colossal nuvem de poeiras oriunda do deserto do Saara que, neste início de março, se encontra a atravessar o sudoeste europeu. Como podem ver na imagem impressionante captada pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS) no dia 5 de março, esta pluma de pó estende-se desde a costa do Norte de África, varrendo com intensidade países como Portugal, Espanha, França e Itália, e alcançando até o Reino Unido. As previsões mais recentes indicam mesmo que esta massa continuará a sua viagem em direção à Escandinávia nos próximos dias.

Embora este fenómeno natural não seja propriamente uma novidade para nós, a escala e a densidade desta incursão em particular merecem a nossa atenção e algum cuidado. Esta invasão de poeiras tem provocado uma degradação severa da qualidade do ar, com as concentrações de partículas inaláveis (PM10) a ultrapassarem de forma clara os limites de segurança estabelecidos pela União Europeia. Estas partículas microscópicas, quando inaladas, podem ter efeitos prejudiciais na nossa saúde, o que levou já os serviços meteorológicos nacionais a emitirem avisos à população.

Neste contexto, é imperativo usar de bom senso, uma regra de ouro que procuro sempre defender por aqui. Se a literacia digital ensina-nos a filtrar a informação que consumimos online, a literacia sobre saúde e ambiente ensina-nos a agir de forma preventiva perante as condições atmosféricas. As recomendações são claras, os grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios crónicos, devem limitar as suas atividades no exterior enquanto esta pluma pairar sobre nós. É importante mantermos as janelas fechadas sempre que possível e acompanharmos as atualizações dos nossos serviços de meteorologia. No fundo, é uma questão de lidarmos com inteligência com mais este capricho da natureza.

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18 Fevereiro, 2026 0 Comments

Literacia Digital, entre a Ligação e a Compreensão

Além da Literacia Digital…

Vivemos tempos paradoxais no Mundo em geral e em Portugal em particular. Ao mesmo tempo que começo a escrever estas primeiras frases, penso de imediato que nunca como antes estivemos tão conectados, com taxas de penetração de internet e utilização de dispositivos móveis que rivalizam com as economias mais desenvolvidas. No entanto, esta facilidade de acesso à informação não se tem traduzido automaticamente em conhecimento, e muito menos em sabedoria. O desafio premente que enfrentamos hoje não é o da exclusão digital no seu sentido mais técnico, mas sim no de uma iliteracia funcional no ambiente online que deixa vastas franjas da população, desde os jovens aos mais idosos, vulneráveis à desinformação. O combate a este fenómeno exige uma mudança de paradigma. Precisamos de deixar de ver o digital apenas como uma ferramenta utilitária e passar a encará-lo como um espaço cívico onde a verdade e a mentira competem ferozmente pelo atrair de atenção.

A desinformação, entendida como uma narrativa comprovadamente falsa ou enganosa criada e disseminada para obter vantagens económicas, políticas ou para enganar deliberadamente o público, tornou-se uma ameaça sistémica à nossa democracia. Em Portugal, onde o consumo de notícias através das redes sociais é elevado, o perigo reside na velocidade com que o falso se propaga. É fundamental distinguir, como nos ensinam as orientações europeias para a educação, entre a informação errada, partilhada sem intenção de dolo, e a desinformação calculada, que visa manipular opiniões, emoções e ações. Esta distinção não é meramente académica. Define a forma como devemos educar as novas gerações. Não basta ensinar usar um computador, é imperativo ensinar a questionar o que aparece nos aparece nos ecrãs. A literacia digital deve ser compreendida como a capacidade para aceder, gerir, compreender, integrar, comunicar, avaliar, criar e divulgar informações de forma segura e adequada.

O sistema educativo português tem feito esforços interessantes para integrar estas competências no currículo, nomeadamente através da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento e de referenciais emanados pela Direção-Geral da Educação. No entanto, a tarefa, obviamente é hercúlea. Os professores, muitas vezes sobrecarregados, são chamados a ser a primeira linha de defesa contra uma indústria de desinformação que utiliza algoritmos sofisticados para criar câmaras de eco e bolhas de filtro *definição no final do artigo. Estas bolhas reforçam crenças preexistentes e isolam os indivíduos de opiniões contrárias, polarizando a sociedade. A escola deve ser o sítio onde se furam estas bolhas, promovendo o contacto com o contraditório e o desenvolvimento do pensamento crítico. Como sugerem os especialistas, técnicas como a “leitura lateral”, verificar o que outras fontes dizem sobre o mesmo tema  e a “desmistificação prévia”, que vacina os alunos contra as táticas de manipulação antes que eles sejam expostos a elas, são essenciais na “caixa de ferramentas” pedagógica moderna.

Contudo, não podemos depositar toda a responsabilidade na escola. A literacia digital enfrenta desafios semelhantes aos da literacia financeira, onde estudos indicam lacunas significativas no conhecimento da população adulta. Tal como é necessário saber gerir o orçamento familiar para não cair em fraudes financeiras, é crucial saber gerir a dieta informativa para não cair em fraudes intelectuais ou ideológicas. A desinformação tem também uma componente económica forte. Os criadores de “fake news” lucram com cada clique, explorando as nossas emoções mais básicas como o medo ou a indignação. Se os portugueses não compreenderem que a sua atenção é uma moeda de troca, continuarão a ser peões num jogo de xadrez onde a verdade é a primeira baixa.

O futuro do combate à desinformação em Portugal passa, inevitavelmente, pela capacitação transversal da sociedade. Precisamos de programas de literacia digital que cheguem aos seniores, frequentemente alvos de burlas online e de desinformação política, e que continuem a reforçar a resiliência dos jovens. A tecnologia, com a ascensão da inteligência artificial e das “deepfakes“, vídeos ou áudios criados por computador que imitam pessoas reais, tornam cada vez mais difícil distinguir o real do “photoshop”. Neste cenário, o ceticismo saudável e a verificação de factos deixarão de ser competências jornalísticas para se tornarem deveres de cidadania.

Esta guerra pela verdade terá de ser ganha com educação, com o saber e com legitimidade intelectual de cada um de nós. Temos as infraestruturas e temos os diagnósticos feitos. O que necessitamos é de uma mobilização para a literacia digital, encarando-a como um desígnio estratégico. Só assim poderemos garantir que a revolução digital serve para nos empoderar enquanto cidadãos e fortalecer a democracia, não manipulando, não dividindo.

A literacia digital não é apenas sobre saber mexer nas máquinas com ecrãs, é sobre saber pensar num mundo dominado por elas. É urgente formar cidadãos digitais que participem de forma ativa, contínua e responsável, tanto online como offline, protegendo os valores democráticos que demorámos tanto a conquistar.

 

…..

 

CÃMARAS DE ECO E BOLHAS DE FILTRO

BOLHAS DE FILTRO
Recolha de Dados: As plataformas registam cada interação: cliques, gostos (likes), tempo de visualização, partilhas e pesquisas.
Análise de Padrões: A inteligência artificial (IA) usa redes neuronais para prever os teus gostos com base em dados passados.
Filtragem de Conteúdo: O algoritmo oculta conteúdos que considera que não lhe interessam ou com os quais discorda, priorizando apenas o que confirma as tuas preferências.
Reforço contínuo: Quanto mais interage com um determinado tipo de conteúdo, mais a plataforma o alimenta, tornando a bolha mais estreita.

CÂMARA DE ECO
Viés de Confirmação: Os utilizadores tendem a procurar informações que confirmem as suas crenças preexistentes.
Seleção de Amigos: As pessoas tendem a seguir e interagir com quem partilha opiniões semelhantes, criando uma “rede entrelaçada” de pensamentos homogéneos.
Efeito de Ressonância: As opiniões divergentes são excluídas ou silenciadas, fazendo com que as mesmas ideias sejam repetidas e amplificadas, como um eco.

RESULTADO
Polarização: Ambientes online onde pontos de vista divergentes não têm espaço, impulsionando assim o extremismo.
Limitação da Realidade: Os utilizadores recebem uma percepção limitada da realidade, restringindo a diversidade informativa.
Criação de Realidades Paralelas: Diferentes grupos de utilizadores vivem em mundos informacionais distintos, dificultando o consenso social.

 

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11 Fevereiro, 2026 0 Comments

Uma bateria de “Peso” na Inovação e no Futuro da Energia

Recentemente, deparei-me com uma notícia que, à primeira vista, parece saída de um filme de ficção científica, mas que é a mais pura realidade. E na China que já não admira. Refiro-me a uma estrutura colossal, situada em Rudong, perto de Xangai, que se assemelha a um gigantesco edifício de betão, mas que na verdade não o é. Trata-se da primeira bateria gravitacional à escala comercial do mundo, um projeto da empresa Energy Vault que promete revolucionar a forma como armazenamos energia renovável. Este desenvolvimento tecnológico fez-me refletir sobre o caminho que estamos a traçar na transição energética, um percurso repleto de boas intenções, mas também de contradições que merecem ser escrutinadas com atenção.

O conceito por trás desta “bateria” é, na verdade, baseada numa física surpreendentemente simples, a mesma que Isaac Newton descreveu há séculos. Ao contrário das baterias químicas que temos nos nossos telemóveis ou nos carros elétricos, este sistema não depende de iões de lítio ou reações complexas. O seu funcionamento baseia-se na energia potencial e cinética ou seja, quando há excesso de produção de energia eólica ou solar na rede, o sistema utiliza essa eletricidade para erguer blocos maciços, feitos de resíduos comprimidos, até ao topo da estrutura. Essa energia fica ali “guardada” sob a forma de altura. Quando a rede precisa de eletricidade, os blocos são largados de forma controlada, acionando geradores através da força da gravidade. É uma ideia engenhosa pela sua simplicidade e durabilidade, contornando a degradação típica das baterias convencionais que perdem capacidade a cada ciclo de carga e descarga.

Esta inovação leva-me invariavelmente a pensar no atual paradigma da mobilidade elétrica, um tema sobre o qual mantenho uma certa relutância, que não escondo. Embora nos vendam a ideia de que o futuro é puramente elétrico e a bateria de lítio é a salvação, tenho sérias dúvidas sobre a sustentabilidade a longo prazo deste modelo para o transporte individual. A extração de lítio e cobalto acarreta custos ambientais pesadíssimos, como temos visto em Portugal, muitas vezes ignorados na equação final da “pegada verde”. É por isso que continuo a defender que, para a mobilidade automóvel, o verdadeiro futuro reside no hidrogénio. O hidrogénio oferece uma densidade energética e uma versatilidade que as baterias atuais dificilmente conseguirão igualar sem tornar os veículos excessivamente pesados e dependentes de matérias-primas escassas. Ver um projeto como este na China, focado em armazenamento estacionário e pesado, reforça a minha convicção de que cada tecnologia tem o seu lugar. A gravidade e a física para a rede elétrica, o hidrogénio para nos movermos.

Sou, sem qualquer dúvida, um apologista das energias verdes. É inegável que precisamos de abandonar os combustíveis fósseis e abraçar fontes limpas. No entanto, esta transição não pode ser feita a qualquer custo, nem de forma cega. Defendo que as energias renováveis devem ser exploradas convenientemente, respeitando o meio ambiente que supostamente visam proteger. Vejo com enorme tristeza e incompreensão projetos que abatem hectares de floresta para implantar parques solares ou eólicos. Não faz qualquer sentido destruir os pulmões do planeta, as árvores que naturalmente capturam carbono, para instalar painéis que visam reduzir o carbono. É um contrassenso ecológico. A tecnologia deve integrar-se na paisagem e no ecossistema, não substituí-lo ou destruí-lo.

Neste aspeto, a bateria gravitacional de Rudong apresenta um ponto interessante. Segundo os promotores, os blocos utilizados não são de betão fresco, mas sim fabricados a partir de resíduos locais e terra, o que sugere uma preocupação com a economia circular que raramente vemos na produção de baterias químicas. Se conseguirmos armazenar a energia do vento e do sol em edifícios que funcionam como pilhas mecânicas, evitamos a mineração desenfreada de metais raros. É uma abordagem mais “bruta”, mas talvez mais honesta e alinhada com os ciclos naturais do que a química sintética altamente processada. No entanto, a escala destes edifícios também levanta questões sobre o impacto visual e a ocupação do solo, relembrando-nos que não há soluções mágicas, apenas compromissos que temos de gerir com sensatez.

O que este projeto demonstra é que a inovação está viva e que não temos de ficar presos aos dogmas atuais da tecnologia. A bateria de Rudong, com a sua capacidade de 100 MWh, prova que é possível pensar “fora da caixa”, ou neste caso, pensar em empilhar caixas para resolver o problema da intermitência das renováveis. Se conseguirmos replicar este tipo de armazenamento limpo e combiná-lo com uma aposta séria no hidrogénio para os transportes, estaremos a caminhar para um futuro verdadeiramente sustentável. Um futuro onde não precisamos de escolher entre ter energia ou ter florestas, e onde a tecnologia serve o homem e a natureza, em vez de se servir deles.

Em conclusão, olho para esta bateria gravitacional com um otimismo cauteloso. É um passo na direção certa para a estabilização das redes elétricas, permitindo-nos aproveitar melhor o sol e o vento sem depender de minerais de conflito. Mas serve também como um lembrete de que a “energia verde” só é verdadeiramente verde se for implementada com inteligência e respeito pelo território. Continuarei a observar estes desenvolvimentos, mantendo a minha defesa pelo hidrogénio nos automóveis e pela preservação das nossas árvores, pois acredito que a verdadeira inovação não está apenas na engenharia das máquinas, mas na sabedoria das nossas escolhas.

21 Julho, 2025 0 Comments

Porque fotografo em formato RAW?

Porque fotografo em formato RAW? Sempre que saio com a intenção de tirar umas fotografias, já sei de antemão qual o formato que vou fotografar. Exato, RAW. Ou, no caso das minhas Nikon, .NEF.

 

Para uns, pode parecer uma escolha mais técnica, para os outros irrelevante. Para mim, acaba por ser uma extensão do cuidado que tenho pelo resultado que espero das minhas fotografias, falando de forma mais abstrata, pela forma como pretendo registar e mostrar ao “mundo” aquilo que vejo. Especialmente este cantinho chamado Castanheira de Pera e Serra da Lousã.

Quem me conhece sabe que não passo muito tempo sem dar uma volta à procura de algo diferente, ou que pelo menos eu o ache assim. Por vezes a leveza do silêncio por entre pinhais ou soutos, o sussurro das folhas ao vento, o contraste entre a luz dourada e a neblina que dança nas manhãs frias da serra, é o que necessito para o meu dia a dia, para desempenhar a minha profissão ou até o meu papel enquanto membro de família. E é exatamente este tipo de detalhes, a textura da luz, o grão nas sombras, o verdadeiro tom do céu ou das águas límpidas da Ribeira de Pera, que só o formato RAW consegue preservar com fidelidade. E nestes dois parágrafos estão a resposta a muitos que me perguntam… “Aquela fotografia é montagem não é?” Não.

Mas afinal, o que é o RAW?

O RAW não é mais do que um ficheiro cru. Ou seja, um ficheiro que contém toda a informação captada pelo sensor da máquina fotográfica, sem compressão, sem alterações, sem filtros automáticos. Basicamente é como ter um negativo digital, com todos os dados brutos prontos a serem revelados com tempo, paciência e claro com criatividade. Ao contrário do formato JPEG, que já vem “cozinhado” pela máquina, o RAW é como um prato que ainda temos de temperar ao nosso gosto e isto, meus amigos, é onde a magia se inicia.

 

JPEG: Rápido, mas limitador

Com isto não estou a afirmar que fotografar em JPEG não tem utilidade. É verdade que é prático, leve, pronto a ser partilhado nas redes sociais. É ideal para quem quer rapidez, para quem não quer perder tempo em pós-produção. Em fotografia de desporto, como os Ralis por exemplo, raramente tiro fotografias em RAW. Mas é aqui que as coisas se complicam. O JPEG descarta informação. Comprime os dados. Aplica automaticamente nitidez, contraste e saturação, baseado em algoritmos que nem sempre sabem ou correspondem ao que eu pretendo com a minha imagem.

Vamos imaginar que estou logo pela manhã na Safra e o sol está a nascer por trás das montanhas vindo de Oleiros. Algum nevoeiro cobre parcialmente os vales e há um veado a cerca de 50 metros. Fazes o “disparo”. Se estiveres em modo JPEG, a tua máquina vai decidir o que é mais importante e talvez ela clareie as sombras e estoire os brancos, ou talvez sature o céu azul e esqueça os tons dourados da vegetação. Já em modo RAW, és tu quem decide o que valorizar, o que escurecer, ou o que revelar.

 

A liberdade de editar

Fotografar em RAW dá-me então… liberdade. E, sinceramente, liberdade é um luxo que eu não abdico. Quando regresso a casa depois de uma caminhada, ainda com os momentos frescos na memória, na minha e não na do cartão, vou então “revelar” as fotos. Assim, não é apenas editar é reviver. E o RAW permite fazermos isso com uma maior profundidade mental até.

Consigo corrigir exposições sem degradar a imagem. Consigo recuperar detalhes nas altas luzes ou sombras mais profundas. Posso ajustar o balanço de brancos com uma precisão que o JPEG nunca me permitiria. Já tive fotos que à primeira vista poderiam parecer “perdidas”, mas que em RAW ganham vida com alguns ajustes no Photoshop ou mesmo Photopea.

É como se a imagem estivesse lá, escondida, à espera de ser trazida à “luz do dia”.

 

Um compromisso com a qualidade

Ao fotografar em RAW, estou a fazer uma promessa a mim mesmo, não me contentar com o mínimo. Estou a dizer que cada fotografia merece o melhor de mim, seja ela de um velho carvalho ou castanheiro junto à estrada ou de um pôr do sol. Cada “disparo” tem uma história. E o RAW permite-me contá-la com toda a intensidade, com todo o detalhe e com toda a verdade.

Sim, os ficheiros são maiores. Sim, exigem mais trabalho. Mas como tudo na vida, aquilo que dá mais trabalho também vale mais a pena.

O mais bonito de tudo é que, ao editar uma fotografia em RAW, consigo regressar com uma nova perspetiva. Aquilo que captei numa manhã fria ou numa tarde quente, ganha uma outra vida. Não se trata apenas de documentar, trata-se de interpretar. Dar um toque pessoal, uma emoção pessoal. Acaba por ser isto que transforma cada imagem em algo profundamente pessoal.

Fotografar em RAW é, para mim, uma escolha natural. Não se trata de técnica, mas de um compromisso com a verdade da imagem através de arte e da emoção. É guardar uma memória apreciada pelos tempos.

Assim, o RAW é o meu parceiro de eleição.

 

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8 Fevereiro, 2025 0 Comments

Galerias Ripícolas: Guardiãs da Biodiversidade Hídrica

Cada vez que faço uma incursão pelas galerias ripícolas da Ribeira de Pera, Cavalete ou das Quelhas, ou mesmo de outro curso de água idêntico em Portugal, é com uma enorme admiração e respeito que o faço. Essencialmente pelo conhecimento dos nossos antepassados no aproveitamento das galerias ripícolas.

 

As galerias ripícolas são ecossistemas imprescindíveis para a biodiversidade e sustentabilidade ambiental dos nossos cursos de água, em específico nos cursos ao longo das ribeiras que acima mencionei. Estas, digamos que formações vegetais, são compostas por uma diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas que desempenham um papel crucial tanto na estabilidade das margens, como na qualidade da própria água e na manutenção da fauna e da flora.

 

A presença das galerias ripícolas está intimamente ligada à diversidade climática e geográfica de um território. Estas “comunidades vegetais” variam em composição, dependendo da região do país e das condições hidrológicas dos cursos de água que as sustentam. Por exemplo, tanto a norte como no centro do país, as galerias ripícolas são dominadas maioritariamente por espécies como o amieiro (Alnus glutinosa), o freixo (Fraxinus angustifolia) e o salgueiro (Salix spp.). Nas regiões mais secas, ou seja a sul do país, encontram-se espécies mais adaptadas a climas mediterrânicos, como o tamargueiro (Tamarix spp.) e algumas variedades de choupo (Populus spp.).

A importância destas galerias ripícolas vai muito além da sua função ecológica mais imediata. Atuam como barreiras naturais contra a erosão, prevenindo o assoreamento dos cursos de água e assim, garantindo uma melhor qualidade da água. A vegetação ripícola também desempenha um papel crucial na regulação térmica das águas, fornecendo sombra e contribuindo para a manutenção das temperaturas ideais para diversas espécies aquáticas, no caso da Ribeira de Pera, a truta. Pegando na truta, ainda acrescentar que as galerias ripícolas são um habitat para uma vasta gama de espécies animais, incluindo aves, mamíferos, répteis e anfíbios. Muitos destes animais dependem destes ecossistemas para a sua alimentação, reprodução e proteção contra os seus predadores. Espécies emblemáticas como a lontra (Lutra lutra) e diversas aves ripícolas, como o guarda-rios (Alcedo atthis), encontram refúgio nestes locais, tornando-as essenciais para a conservação da biodiversidade.

 

Não queria no entanto deixar de manifestar a minha preocupação com as diversas ameaças que estes locais enfrentam. A destruição e a fragmentação destas formações devido a diversos fatores como a urbanização, agricultura, construção de infraestruturas hídricas, no entanto e principalmente, o abandono. Todos estes fatores vão comprometendo a sua integridade ao longo do tempo. A “introdução” de espécies invasoras, como a acácia (Acacia spp.) e o ailanto (Ailanthus altissima), também representam desafios significativos. Assim, a proteção e recuperação de galerias ripícolas requerem uma abordagem integrada e multidisciplinar com medidas que implementem uma gestão sustentável, como corredores ecológicos, a reabilitação das margens degradadas e a remoção de espécies exóticas invasoras, ações fundamentais para garantir a sua preservação.

Os mosaicos florestais, os vários projetos de reflorestação com espécies autóctones, assim como os condomínios de aldeia, têm sido importantes na recuperação da funcionalidade ecológica destes sistemas.

 

Ribeira do Cavalete – Castanheira de Pera | Serra da Lousã

Para além das iniciativas quer de um âmbito governamental quer institucional, é essencial também envolver as comunidades locais nesta proteção destes habitats. Educar sobre a importância destas galerias ripícolas e a promoção de boas práticas de uso da terra irão contribuir significativamente para uma preservação a longo prazo. Programas de pedestrianismo, educativos junto das escolas, podem incentivar a uma participação ativa na monitorização e na proteção destes ecossistemas.

 

Para concluir, dizer uma vez mais que as galerias ripícolas desempenham um papel imprescindível na manutenção da biodiversidade, na proteção dos recursos hídricos e na estabilidade ecológica dos nossos cursos de água. No entanto, para que continuem a cumprir estas funções, é fundamental implementar estratégias eficazes de conservação e gestão das mesmas. Uma conjugação de esforços entre entidades governamentais, académicas e sociedade civil é um objetivo a seguir para assegurar a perenidade destes ecossistemas, garantindo um futuro mais sustentável para os rios e ribeiras do nosso país.

 

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18 Janeiro, 2025 0 Comments

A silhueta escura da turbina

Passar algumas horas pela serra, num dia fresco de inverno, à espera do momento certo para disparar o obturador, é algo que exige alguma paciência. Mas quando o resultado, como o desta imagem, sai do cartão de memória, valeu a pena o “esforço”. 

Estas turbinas eólicas dominam a paisagem da serra. O contraste com a natureza, é por demais evidente. Nesta fotografia, quis captar a “harmonia” entre os avanços tecnológicos e a beleza natural da Serra da Lousã. A escolha do enquadramento não foi ao acaso; andei um pouquinho de um lado para o outro, testando diferentes perspectivas, até encontrar a “composição ideal”.

A luz foi um desafio. No inverno, o sol “desce” depressa e os tons do céu mudam a cada  segundo. Ajustar a exposição, encontrar o equilíbrio certo entre sombra e brilho, e ainda garantir que o vento não me fazia perder o enquadramento desejado exigiu alguma concentração. Mas aquele instante em que o sol ficou exatamente onde eu queria foi um momento de pura realização.

Fotografar é mais do que apenas carregar num botão, está em todos os livros de fotografia e é algo que todos compreenderão. Na verdade é estar presente, sentir o ambiente, antecipar a luz, ajustar os parâmetros e esperar pacientemente pelo instante certo. Depois é chegar a casa e descarregar o cartão e … temos uma memória perpétua.

 

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“O que não precisas como iniciante em fotografia”
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“O Segredo dos nossos dados”
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“Inteligência Artificial e a Fotografia”
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“Máquinas fotográficas Versus Smartphones”
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5 Janeiro, 2025 0 Comments

O Segredo dos nossos dados

A informação passou a ser dos recursos mais valiosos do mundo. Cada clique, cada interação e cada segundo que passamos online geram dados que são recolhidos, analisados e utilizados quer por empresas quer por governos. Mas até que ponto temos consciência do que acontece com as nossas informações pessoais? Quem é que realmente controla estes dados e quais são as implicações para a nossa privacidade e liberdade?

O segredo dos nossos dados, está mesmo em segredo?

Clive Humby, um matemático britânico e pioneiro na análise de dados, refere que os dados são o novo petróleo. Certo é que grandes empresas de tecnologia têm construído verdadeiros impérios baseados na recolha e análise de informações dos utilizadores, os dados. A Google, Facebook, Amazon e tantas outras empresas, dependem dos nossos dados para otimizar todos os seus serviços para assim direcionar anúncios e, mais preocupante ainda, prever e influenciar comportamentos. Através de algoritmos finos, estas empresas conseguem mapear interesses, antecipar desejos e até manipular decisões. O que antes era apenas publicidade personalizada, agora extravasa a áreas como a política, economia e até mesmo à saúde. A questão é: até que ponto estamos dispostos a trocar a nossa privacidade por conveniência?

Muitas plataformas continuam a afirmar que nós enquanto utilizadores, temos o poder de controlar os nossos dados, através das configurações de privacidade. Estas opções no entanto, são na maioria das vezes, complexas e “escondidas” em longos termos de uso que poucos têm vontade de ler. Mesmo após ajustarmos as nossas preferências, continuamos a fornecer dados a cada interação digital, muitas vezes sem nos apercebermos. Há ainda uma falta de transparência sobre como estas informações são utilizadas. Por exemplo, os dados que partilhamos com uma aplicação podem ser vendidos a terceiros sem o nosso conhecimento. Estas empresas utilizam os nossos dados para criar perfis detalhados (personas) que podem ser usados para nos vender produtos, moldar opiniões políticas ou influenciar comportamentos, tudo isto de forma imperceptível.

As redes sociais são um claro exemplos de como os dados são usados para moldar comportamentos. Os algoritmos determinam o que vemos nos nossos feeds, priorizando conteúdos que geram maior envolvimento, criando bolhas de informação, onde somos expostos apenas a opiniões semelhantes às nossas, reforçando crenças e dificultando um debate saudável. Este fenómeno contribui para a tão mencionada polarização da sociedade, já que diferentes grupos recebem informações distintas e muitas vezes manipuladas. A propagação de fake news é assim facilitada, pois conteúdos sensacionalistas tendem a gerar mais interações e, consequentemente, são mais promovidos pelos algoritmos. O exemplo da ida do homem à Lua, é flagrante.

Este uso de dados não é limitado apenas às empresas e ao privado. Os Governos também estão a recorrer à vigilância digital para monitorizar cidadãos sob o pretexto de uma segurança nacional. Tecnologias de reconhecimento facial, monitorização de redes sociais e armazenamento massivo de comunicações, são algumas das ferramentas utilizadas. Estas medidas, embora sejam muitas vezes justificadas como forma de combater o crime, têm a sua implementação sem regulamentação adequada o representa uma ameaça às liberdades individuais. A privacidade é um direito fundamental e, quando comprometida, pode levar a um estado de vigilância constante onde cada ação é registada e potencialmente usada contra as pessoas.

Os dados também não são usados apenas para publicidade e segurança. Empresas de saúde e seguradoras estão cada vez mais interessadas nas informações médicas e nos hábitos das pessoas. Com o avanço da inteligência artificial, já é possível prever doenças e criar tratamentos personalizados baseados em análise de grandes volumes de dados. Esta utilização levanta também ela, questões éticas. Se os dados de saúde forem utilizados de forma inadequada, podem levar à discriminação no acesso tanto a seguros como até no acesso ao emprego. Uma pessoa com um histórico de doenças pode ver as suas oportunidades reduzidas devido a perfis de risco que as próprias empresas criam. Também aqui, a falta de regulamentação adequada pode resultar em injustiças e aumentar as desigualdades sociais.

Chegámos ao Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). A União Europeia foi um dos primeiros a dar passos para tentar devolver aos cidadãos o controlo sobre os seus dados. Ainda assim, muitas empresas procuram formas de contornar estas leis, tornando assim necessário um reforço nas políticas de proteção de dados. A legislação pode e deve evoluir para garantir maior transparência e responsabilização das empresas que recolhem e utilizam os nossos dados. Os cidadãos também necessitam de mais ferramentas para estar mais conscientes sobre como os seus dados são tratados e exigir mais proteção e direitos sobre as suas próprias informações.

A responsabilidade também recai assim sobre cada um de nós. A nossa responsabilização e conhecimento sobre o tema. Pequenas ações, como verificar que permissões são ou não concedidas às aplicações, a utilização de navegadores focados na privacidade e evitar também o uso excessivo de redes sociais. São tudo ações que podem fazer a diferença. Também o recurso a ferramentas como VPNs, bloqueadores de rastreadores e motores de busca alternativos podem ajudar a minimizar a nossa exposição online. Mais importante ainda, precisamos de promover a literacia digital. Devemos ter presente desde cedo a importância da privacidade e os riscos associados à partilha excessiva de informações. A consciencialização é a primeira linha de defesa contra a exploração dos nossos dados.

O segredo dos nossos dados é que, na realidade, eles deixaram de ser nossos. Vivemos numa sociedade onde a informação tornou-se numa moeda de troca, e a nossa privacidade é o preço a pagar pela nossa conveniência digital. Estaremos condenados a este destino? Com uma regulamentação adequada, maior transparência e mudanças nos nossos hábitos, podemos ainda recuperar parte do controlo sobre parte ou mesmo um todo das nossas informações.

A questão principal que se coloca é: estamos dispostos a lutar por este direito ou vamos continuar a ceder os nossos dados em troca de um mundo aparentemente mais conectado, mas profundamente e cada vez mais controlado?

 

29 Dezembro, 2024 0 Comments

Mapa Mercator versus Mapa AuthaGraph

O Mapa Mercator versus Mapa AuthaGraph. Temos olhado durante séculos para um mundo “distorcido”. Isto é, olhando à maioria dos mapas que aprendemos a utilizar, como o famoso mapa de Mercator, criado em 1569, este acaba por falhar na representação da Terra. Esta projeção aumenta desproporcionalmente as regiões no hemisfério norte, pensemos, por exemplo, no tamanho exagerado da Gronelândia, face a África que parecem ser idênticos em tamanho, quando, na realidade, África é 14 vezes maior! Este mapa tradicional além de ter sido uma ferramenta prática para a navegação marítima, ajudou também a perpetuar uma visão bastante eurocêntrica do mundo.

Foi na década de 70, que o jornalista alemão Arno Peters “denunciou” estas distorções, propondo então alternativas que desafiassem a hegemonia do mapa de Mercator. No entanto, só mais recentemente surgiu uma solução verdadeiramente inovadora: o Mapa AuthaGraph. Este mapa foi criado pelo arquiteto e artista japonês Hajime Narukawa e é considerado, por muitos, o retrato mais preciso do nosso planeta até hoje. Tanto que venceu o prestigiado Good Design Award no Japão.

Então, o que faz com que o Mapa AuthaGraph seja assim tão especial? Priemeiro, cria uma ruptura com os paradigmas habituais ao dividir o globo terrestre em 96 triângulos. São estes triângulos que depois acabam por ser projetados num tetraedro, e que por fim é desdobrado num retângulo. Este método elimina as distorções clássicas, como o exagero das áreas perto dos polos, ao mesmo tempo que mantém as proporções corretas entre os continentes e os oceanos. Além disto, a versatilidade do mapa permite que ele seja “remontado”, colocando qualquer região no centro sem perder a necessária precisão geográfica. É, literalmente, uma nova forma de vermos o mundo.

Esta abordagem acaba por não ser apenas uma questão de precisão científica. Num momento em que enfrentamos desafios globais como o derreter dos glaciares, a subida do nível do mar e disputas sobre recursos marítimos, um mapa que dá esta atenção a oceanos e regiões polares como aos continentes, é crucial. Ele convida-nos a olhar para o planeta de uma forma mais integrada e interligada, promovendo ao mesmo tempo uma consciência global.

Ao observar esta imagem do Mapa AuthaGraph, acabo por sentir que há algo profundamente inspirador na ideia de desconstruir e reconstruir a nossa visão do mundo. Não só nos desafia perante os preconceitos históricos, como também nos faz recordar da beleza e complexidade do nosso planeta. Talvez com esta nova perspectiva, seja exatamente o que precisamos para enfrentar os desafios de um mundo em constante mudança. Afinal, compreendermos o planeta é o primeiro passo para cuidarmos dele.

 

The AuthaGraphy projection