
Castanheira de Pera | Documentário RTP | 1964
De quando em vez, gosto de mergulhar nos arquivos da RTP. Hoje trago o documentário da série “Terras de Portugal”, dedicado a Castanheira de Pera, transmitido originalmente no verão de 1964. É-nos apresentado como uma obra documental que combina a geografia, a cultura, a força económica e a singularidade do nosso concelho no contexto da província portuguesa. Produzido em plena década de 60, é um retrato oficial que reflete não só a visão de um Portugal pacato e laborioso, mas também insinua o esforço de projeção de um regime que desejava demonstrar estabilidade, ordem e progresso económico a partir do centro do país.
Praça da Sardinha – Castanheira de Pera 1964
Para um espetador de Castanheira de Pera, o filme ganha, naturalmente, um significado especial ao incluir referências específicas e imagens de locais e vivências que nos são tão familiares. Ao longo dos minutos, surgem no nosso ecrã as imponentes fábricas de lanifícios, que durante tantas décadas foram o coração pulsante da nossa economia local. É o retrato de um sítio com uma história profundamente ligada à tecelagem, que servia e vestia o país inteiro, e que simbolizava o engenho, a força e a resiliência da nossa terra. Ver aquelas imponentes chaminés a fumegar, sem ser IA, o movimento ritmado e mecânico dos teares e a agitação diária dos trabalhadores em 1964 é um momento arrepiante, é um testemunho visual de tradições industriais profundamente enraizadas neste vale da Vertente Sul da Serra da Lousã, revelando um orgulho coletivo pela tenacidade e pelo trabalho árduo destas gentes.
Mais à frente, a lente detém-se também no enquadramento paisagístico da vila, nas margens verdejantes da Ribeira de Pera, nas ruas calcetadas e na arquitetura típica daquela época. Aqui observamos um pequeno e precioso vislumbre do modo de vida das décadas passadas, sublinhado pela simplicidade, pela aparente tranquilidade quotidiana e por uma forte ligação à terra e às fábricas que sempre caracterizaram Castanheira de Pera. São imagens que apelam à minha memória familiar e à continuidade da nossa identidade enquanto comunidade. Quase que podemos imaginar os nossos avós a cruzar aquelas ruas, após o soar da sirene que marcava o fim de mais um longo turno nos teares.

Jardim Casa da Criança Rainha Dona Leonor – Castanheira de Pera 1964
Apesar de todo este fascínio cultural, saudosista e pitoresco, não posso, nem devemos ignorar que este documentário é também apresentado como uma subtil peça de propaganda ao regime do Estado Novo. Filmado em 1964, numa altura em que Portugal já se encontrava a braços com os sobressaltos da Guerra do Ultramar, esta obra da televisão estatal exalta a imagem de um país em perfeita harmonia, trabalhador e altamente disciplinado. Omite, de forma propositada, as restrições de liberdade, a dureza extrema e exigente do trabalho operário e as profundas desigualdades sociais que marcavam a realidade diária da maioria das famílias de então. Basta atentar na suposta “felicidade” estampada no rosto de muitos dos que aparecem nas imagens.
Este tipo de produção audiovisual visava mostrar um Portugal puramente produtivo e imune a convulsões políticas, escondendo a repressão e os limites rigorosos impostos às vozes dissonantes da sociedade. A narrativa construída, embalada pela cadência clássica do locutor e por uma banda sonora orquestral, é um reflexo claro de como o regime procurava projetar uma imagem controlada e idealizada da “província”, disfarçando-se de modernidade industrial num contexto de ditadura.

Praça do Visconde Nova Granada – Castanheira de Pera 1964
Ao mesmo tempo que estamos inegavelmente perante uma cápsula do tempo fascinante e repleta de detalhes históricos, sociológicos e culturais da nossa Castanheira de Pera, estamos também a ver um “veículo” de difusão ideológica que nos lembra da complexidade de interpretar o passado com uma visão crítica e informada. É essencial admirar a resiliência dos nossos antepassados ali retratados, mas sem romantizar a dureza do tempo em que viveram. Tal combinação de beleza, memória e controvérsia histórica faz deste documentário um material essencial para compreender as múltiplas camadas da nossa história e os desafios constantes de conciliar a memória afetiva com a verdade dos factos e o futuro da nossa terra.

Santo António da Neve – Castanheira de Pera 1964
Deixo a recomendação… vejam, recordem e reflitam…
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