O “Pontão” do Coentral em 1944
Coentral… há imagens que transcendem o simples registo visual. Há imagens que se tornam janelas capazes de nos transportar para um tempo que já não existe, devolvendo-nos, mesmo que por instantes, ao pulsar de um modo de vida perdido. Esta imagem de 1944 mostra-nos o encontro da Ribeira do Cavalete, também conhecida como Ribeira do Vale dos Lobos, com a Ribeira do Coentral. Captada numa época em que o quotidiano se moldava ao ritmo da terra, da água, do sol e das mãos humanas. Esta fotografia torna-se mais do que uma recordação, é uma peça emocional e histórica do património do Coentral e de Castanheira de Pera.
O “pontão”, situa-se entre o Coentral Grande e o Coentral “Pequeno”, o Coentral das Barreiras e o Coentral do Fojo. Para a escola primária, a pé, muita travessia sobre a ribeira nesta ponte. Nesta imagem, pelo seu enquadramento, é-nos revelado um cenário que, para muitos habitantes e descendentes, só existia em memórias contadas ou livros.
A década de 40 foi uma época de trabalho árduo. As famílias do Coentral, tal como de tantas aldeias serranas, viviam essencialmente da agricultura, da pastorícia e da força do seu próprio engenho. Os dias eram ditados pela necessidade de aproveitar ao máximo cada recurso. A água para mover os moinhos, as encostas para o pasto, as pedras para erguer abrigos, delimitar os terrenos e talvez os fojos. Não havia excessos, havia apenas o necessário. Mas havia, sobretudo, uma ligação profunda à paisagem, porque era dela que nascia tudo o que sustentava a vida no Coentral.
Nesta fotografia, essa ligação está impressa em cada detalhe. O caminho ainda em pedra, o pontão robusto construído também em pedra, ainda sem alcatrão, os muros que dividiam os campos, o pequeno moinho e a casa hoje reconstruída. Tudo isto compõe um retrato fiel da ruralidade serrana de então. São elementos que nos falam de uma forma de viver que dependia da proximidade, da entreajuda e do conhecimento transmitido de geração em geração.
Um dos aspectos mais marcantes desta imagem é precisamente aquilo que não está nela. O moinho em perfeitas condições, elemento que sublinha a pureza da paisagem original da época. Em 1944, a interação humana com o território era funcional. O que vemos nesta imagem é uma terra quase intocada, nem a pequena pedreira vemos na imagem. A intervenção humana limitava-se ao essencial, aos caminhos, muros, abrigos e pequenas estruturas de apoio ao trabalho agrícola e à circulação como a Selada do Cavalete.
Se hoje a existência da pequena pedreira faz parte da memória um pouco mais recente, esta fotografia recorda-nos que houve um tempo em que tudo era mais silencioso, mais orgânico e mais natural. E é justamente essa pureza que desperta em nós um sentimento nostálgico, mesmo para quem nunca viveu nesta época. É um apelo da autenticidade.
A casa que surge na fotografia, hoje está ainda íntegra e bem cuidada, é um símbolo de resiliência e de uma migração contemporânea. Representa o mesmo espírito de funcionalidade. Não eram construções pensadas para impressionar, mas para resistir ao clima e ao tempo, feitas em pedra local, integradas de forma harmoniosa na paisagem. Já os moinhos eram centros vitais da comunidade. Eram nos moinhos que os cereais se transformavam em farinha, e era também ali que as pessoas se encontravam, trocavam notícias, aguardavam a sua vez, partilhavam a vida. Ver o moinho ainda operacional em 1944 reforça a importância social que este espaço teve durante décadas. Hoje estão praticamente todos em ruínas. Mas há ainda uma presença silenciosa, a ruína na Selada do Cavalete, claramente visível na fotografia e hoje completamente desaparecida. Restam-lhe apenas sombras na memória coletiva.
O verdadeiro poder desta imagem reside na sua capacidade de nos permitir ver um local que já não existe aos nossos olhos de hoje. Esta imagem não só documenta uma paisagem, como preserva um fragmento inteiro de identidade cultural com mais de 80 anos. É uma âncora que liga o presente ao passado, uma oportunidade de contemplar, com profundidade, a evolução de uma comunidade e do seu território.
Há algo de profundamente humano na forma como percebemos fotografias antigas. É como se tocássemos o tempo, num tempo que alguém também o congelou. Esta imagem, captada numa era em que poucas pessoas tinham acesso a máquinas fotográficas, tem ainda mais valor precisamente por ser rara. Não foi tirada como um ato banal, mas sim como algo excecional. E, por isso, hoje tem a capacidade de nos emocionar, de nos fazer refletir e de nos devolver, mesmo que por alguns instantes, ao silêncio de uma época e ao ritmo lento de uma época.
Parabéns ao autor, Carvalho 1944
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Dia Mundial da Fotografia e o poder de congelar o tempo
Consigo olhar para esta fotografia de um pôr do sol e pensar imediatamente no motivo pelo qual, ano após ano, continuo a agarrar na máquina fotográfia. No fundo, a fotografia é o único instrumento capaz de congelar o tempo. E se hoje celebramos o Dia Mundial da Fotografia, é porque há algo de universal e eterno neste gesto tão simples de carregar no botão e registar um ínfimo instante. Mas será que é assim tão simples?
Vivemos numa era em que fotografar é quase um reflexo involuntário. Todos nós, a qualquer momento, pegamos num telemóvel no bolso pronto para eternizar uma saída em família, um concerto ou festa da aldeia ou até mesmo uma sobremesa num restaurante. Nunca se fotografou tanto. Mas paradoxalmente, penso que também nunca se olhou tão pouco para as fotografias. O volume é esmagador, o consumo é efémero, e a maioria das imagens perdem-se em pastas digitais, em cartões, e até em feeds de redes sociais. Às vezes mesmo em backups na nuvem que por vezes até me esqueço que estão lá.
É por isso que este simples pôr do sol, captado em toda a sua intensidade de cores e contrastes, me faz pensar que a fotografia só cumpre o seu verdadeiro papel quando nos obriga a congelar no tempo. Quando nos confronta. Quando nos pede que deixemos de correr para olhar, de facto, para o que temos à nossa frente. Sonhar acordado.
Estamos numa era tecnológica, acelerada, marcada por inteligência artificial, algoritmos e um volume de dados que desafia qualquer noção tradicional de memória. E neste turbilhão tecnológico, a fotografia tem um papel crucial pois acaba por ser a testemunha silenciosa deste nosso novo tempo.
Um pôr do sol não é apenas a luz a desaparecer no horizonte. É a prova de que estivemos ali, de que respirámos aquele ar, de que nos deixámos tocar por aquela cor. Uma fotografia de rua não é apenas uma multidão apressada, mas um retrato social de como vivemos nos dias de hoje. Uma fotografia de família não é apenas a soma de rostos, mas um acumular do nosso crescimento e da nossa identidade coletiva.
Neste sentido, fotografar em 2025 é muito mais do que uma atividade artística ou técnica. É uma forma de resistir ao esquecimento. É afirmar que isto aconteceu, isto existiu, eu estive aqui. Isto apesar da maioria das vezes nem aparecer na fotografia…
Olhando para o futuro, não posso deixar de pensar no dilema em que nos encontramos. Por um lado, temos a banalização da fotografia, essa avalanche de imagens produzidas todos os dias que acaba por lhes retirar valor. Por outro, temos a oportunidade única de registar o mundo e o que nos rodeia como nunca.
É aqui que entra a diferença entre fotografar e fazer uma fotografia. Fotografar é disparar sem pensar, é acumular ficheiros sem qualquer tipo de filtros. Fazer uma fotografia é olhar com intenção, escolher o enquadramento, sentir a luz, esperar pelo momento. É aquilo que distingue o instante banal da memória eterna.
No futuro, imagino que a fotografia terá de se reinventar. Já vemos inteligência artificial a gerar imagens hiper-realistas que nunca existiram. Já vemos algoritmos a manipular rostos, cenários e emoções. E talvez estejamos a caminhar para um tempo em que será cada vez mais difícil distinguir o que foi captado do que foi inventado. Mas é precisamente aí que a fotografia irá ganhar ainda mais importância porque haverá sempre algo insubstituível na honestidade de um clique, na verdade de um instante não encenado. A alma da fotografia.
Não quero, no entanto, tornar este artigo num manifesto pesado. Porque a fotografia também é leveza, também é descontração. Quantos de nós não temos no telemóvel aquela fotografia desfocada, mal enquadrada, mas que nos arranca uma gargalhada sempre que a vemos? Quantos de nós não guardamos imagens aparentemente imperfeitas, mas que carregam o peso das nossas melhores memórias?
É este lado humano, imperfeito, que me faz acreditar que a fotografia nunca perderá a sua relevância. Mesmo que um dia as máquinas consigam criar imagens perfeitas, já o fazem aliás, de uma beleza calculada ao milímetro, haverá sempre espaço para aquela fotografia tremida, embaçada ou para aquele pôr do sol com as cores ligeiramente estouradas, mas que nos devolve a emoção de estarmos vivos naquele momento.
No Dia Mundial da Fotografia, a minha opinião é clara. Necessitamos de reaprender a dar valor às imagens. Menos quantidade, mais intenção. Menos pressa, mais contemplação. Não importa se fotografamos com uma DSLR topo de gama em RAW ou com um simples smartphone em JPEG. O que importa é o olhar que levamos connosco.
A fotografia é tanto técnica como emoção, tanto memória como criação. É arquivo e é poesia. É o reflexo do que fomos e a promessa do que ainda poderemos ser.
Enquanto existir um pôr do sol, como o da fotografia que me inspirou a escrever estas linhas, haverá sempre alguém a querer pará-lo no tempo. E enquanto houver alguém disposto a fazer isso, a fotografia continuará a ser o idioma universal que une gerações, geografias e culturas.
Porque no fim, cada fotografia é um testemunho, uma pergunta e uma resposta. E no futuro que se avizinha, cheio de incertezas digitais, essa será talvez a maior das nossas certezas, a de que a fotografia nunca deixará de ser… necessária.
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Porque fotografo em formato RAW?
Porque fotografo em formato RAW? Sempre que saio com a intenção de tirar umas fotografias, já sei de antemão qual o formato que vou fotografar. Exato, RAW. Ou, no caso das minhas Nikon, .NEF.
Para uns, pode parecer uma escolha mais técnica, para os outros irrelevante. Para mim, acaba por ser uma extensão do cuidado que tenho pelo resultado que espero das minhas fotografias, falando de forma mais abstrata, pela forma como pretendo registar e mostrar ao “mundo” aquilo que vejo. Especialmente este cantinho chamado Castanheira de Pera e Serra da Lousã.
Quem me conhece sabe que não passo muito tempo sem dar uma volta à procura de algo diferente, ou que pelo menos eu o ache assim. Por vezes a leveza do silêncio por entre pinhais ou soutos, o sussurro das folhas ao vento, o contraste entre a luz dourada e a neblina que dança nas manhãs frias da serra, é o que necessito para o meu dia a dia, para desempenhar a minha profissão ou até o meu papel enquanto membro de família. E é exatamente este tipo de detalhes, a textura da luz, o grão nas sombras, o verdadeiro tom do céu ou das águas límpidas da Ribeira de Pera, que só o formato RAW consegue preservar com fidelidade. E nestes dois parágrafos estão a resposta a muitos que me perguntam… “Aquela fotografia é montagem não é?” Não.
Mas afinal, o que é o RAW?
O RAW não é mais do que um ficheiro cru. Ou seja, um ficheiro que contém toda a informação captada pelo sensor da máquina fotográfica, sem compressão, sem alterações, sem filtros automáticos. Basicamente é como ter um negativo digital, com todos os dados brutos prontos a serem revelados com tempo, paciência e claro com criatividade. Ao contrário do formato JPEG, que já vem “cozinhado” pela máquina, o RAW é como um prato que ainda temos de temperar ao nosso gosto e isto, meus amigos, é onde a magia se inicia.
JPEG: Rápido, mas limitador
Com isto não estou a afirmar que fotografar em JPEG não tem utilidade. É verdade que é prático, leve, pronto a ser partilhado nas redes sociais. É ideal para quem quer rapidez, para quem não quer perder tempo em pós-produção. Em fotografia de desporto, como os Ralis por exemplo, raramente tiro fotografias em RAW. Mas é aqui que as coisas se complicam. O JPEG descarta informação. Comprime os dados. Aplica automaticamente nitidez, contraste e saturação, baseado em algoritmos que nem sempre sabem ou correspondem ao que eu pretendo com a minha imagem.
Vamos imaginar que estou logo pela manhã na Safra e o sol está a nascer por trás das montanhas vindo de Oleiros. Algum nevoeiro cobre parcialmente os vales e há um veado a cerca de 50 metros. Fazes o “disparo”. Se estiveres em modo JPEG, a tua máquina vai decidir o que é mais importante e talvez ela clareie as sombras e estoire os brancos, ou talvez sature o céu azul e esqueça os tons dourados da vegetação. Já em modo RAW, és tu quem decide o que valorizar, o que escurecer, ou o que revelar.
A liberdade de editar
Fotografar em RAW dá-me então… liberdade. E, sinceramente, liberdade é um luxo que eu não abdico. Quando regresso a casa depois de uma caminhada, ainda com os momentos frescos na memória, na minha e não na do cartão, vou então “revelar” as fotos. Assim, não é apenas editar é reviver. E o RAW permite fazermos isso com uma maior profundidade mental até.
Consigo corrigir exposições sem degradar a imagem. Consigo recuperar detalhes nas altas luzes ou sombras mais profundas. Posso ajustar o balanço de brancos com uma precisão que o JPEG nunca me permitiria. Já tive fotos que à primeira vista poderiam parecer “perdidas”, mas que em RAW ganham vida com alguns ajustes no Photoshop ou mesmo Photopea.
É como se a imagem estivesse lá, escondida, à espera de ser trazida à “luz do dia”.
Um compromisso com a qualidade
Ao fotografar em RAW, estou a fazer uma promessa a mim mesmo, não me contentar com o mínimo. Estou a dizer que cada fotografia merece o melhor de mim, seja ela de um velho carvalho ou castanheiro junto à estrada ou de um pôr do sol. Cada “disparo” tem uma história. E o RAW permite-me contá-la com toda a intensidade, com todo o detalhe e com toda a verdade.
Sim, os ficheiros são maiores. Sim, exigem mais trabalho. Mas como tudo na vida, aquilo que dá mais trabalho também vale mais a pena.
O mais bonito de tudo é que, ao editar uma fotografia em RAW, consigo regressar com uma nova perspetiva. Aquilo que captei numa manhã fria ou numa tarde quente, ganha uma outra vida. Não se trata apenas de documentar, trata-se de interpretar. Dar um toque pessoal, uma emoção pessoal. Acaba por ser isto que transforma cada imagem em algo profundamente pessoal.
Fotografar em RAW é, para mim, uma escolha natural. Não se trata de técnica, mas de um compromisso com a verdade da imagem através de arte e da emoção. É guardar uma memória apreciada pelos tempos.
Assim, o RAW é o meu parceiro de eleição.
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A Sustentabilidade Hídrica em Castanheira de Pera
Falo uma vez mais em Sustentabilidade Hídrica. Num país onde a escassez de água e a poluição dos recursos hídricos tornaram-se preocupações do nosso dia-a-dia, Castanheira de Pera destaca-se como um exemplo notável de preservação ambiental. Em 2024, este município alcançou novamente a impressionante marca de 100% das suas massas de água classificadas com qualidade boa ou excelente, conforme divulgado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Este feito é ainda mais relevante considerando que, no mesmo período, 39 concelhos portugueses enfrentaram sérias dificuldades devido à degradação da qualidade das suas águas.
Situada na região centro de Portugal, no sopé Sul da Serra da Lousã, é em Castanheira de Pera que “nascem” verdadeiros tesouros naturais. A Ribeira de Pera, por exemplo, é o resultado do que eu chamo do “nosso Vale Glaciar” que começa na Selada de Pera e depois vem serpenteando pela paisagem, alimentando zonas como o Parque de Merendas da Fonte das Bicas no Coentral, como a Ponte de Pedra nas Sarnadas, o espelho de água do Pisão, a Praia Fluvial do Poço Corga, a Praia das Rocas a maior Praia com ondas da Península Ibérica e todos os açudes ao longo da Ribeira. Estes locais não são apenas zonas de lazer, são testemunhos vivos da harmonia entre a comunidade local e o meio ambiente.
A biodiversidade desta zona é igualmente particular, já o escrevi várias vezes e na verdade não me canso de o fazer. Por um lado, por questões factuais e, por outro, para ter sempre este tema na “ordem do dia” e todos dos mais novos aos mais velhos nos irmos lembrando da importância deste assunto. Voltando à biodiversidade, as margens dos afluentes da Ribeira de Pera e da própria Ribeira de Pera, vão abrigando uma variedade de espécies de flora e fauna, criando assim ecossistemas ricos e equilibrados. É este equilíbrio ecológico que é fundamental não apenas para a saúde ambiental, mas também para o bem-estar da população que depende destes recursos para atividades como agricultura, turismo e lazer.
Qualidade de Massas de Água em Portugal 2024

Qualidade-de-massas-de-agua.xls
Quadro extraído em 17 de Abril de 2025 / http://www.ine.pt
A presença de praias fluviais bem conservadas, de Percursos Pedestres, passando pelo Passadiço das Quelhas que, atrai visitantes de diversas partes do país, são experiências únicas de contacto com esta natureza, promovendo o turismo sustentável junto tanto de escolas como de outras associações e mesmo municípios. Só assim se vai reforçando a importância da conservação ambiental, conciliando o desenvolvimento económico com a preservação ambiental desde que haja vontade política, envolvimento comunitário e estratégias bem delineadas. A manutenção das zonas ripícolas, a vigilância contra fontes de poluição e o incentivo à educação ambiental são práticas enraizadas e visíveis TODO O ANO.
Em tempos de mudanças climáticas aceleradas, podemos por exemplo na cada vez menor queda de neve que vamos assistindo ano após ano, onde assim os desafios ambientais são crescentes. Histórias como a de Castanheira de Pera são fonte de inspiração, mostram-nos que, com compromisso e ação coordenada, é possível proteger os recursos naturais e garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.
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Serra da Lousã: Um Instante de Natureza e Biodiversidade
Simplesmente caminhar pela, ou ao longo da Serra da Lousã, é aventurar-nos por uma paisagem onde a vida selvagem ainda encontra refúgio. Esta vida selvagem proporciona momentos únicos para quem gosta de fotografar ou simplesmente, observar a natureza no seu estado mais autêntico.
Foi numa destas “expedições” matinais, sob um céu parcialmente encoberto e a promessa de chuva iminente, que tive a felicidade de capturar esta imagem singular: dois javalis, ágeis e robustos, a subir tranquilamente por um pequeno declive coberto por ervas altas. Mesmo num dos planaltos da Serra a mais de 1000m de altitude.
A fotografia acaba por nos mostrar muito mais do que dois animais selvagens. Revela um instante de ligação profunda com a natureza, retratando a dinâmica e vitalidade do ambiente selvagem. Os javalis, embora frequentemente considerados animais comuns e até incómodos por muitos, desempenham um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas onde vivem. Sendo animais omnívoros, contribuem decisivamente para a dispersão de sementes, ajudando na regeneração florestal e influenciando diretamente na diversidade da flora local.
Na Serra da Lousã, território caracterizado pela sua diversidade ecológica, os javalis representam apenas uma pequena fração da riquíssima fauna existente. Este habitat privilegiado abriga ainda espécies emblemáticas como o veado, o corço ou a raposa, além de inúmeras aves, anfíbios e répteis, todos coexistindo num delicado equilíbrio ecológico. Cada caminhada pelos trilhos desta serra acaba por ser uma descoberta surpreendente, reforçando a importância da preservação destes ecossistemas para as futuras gerações.
A flora da Serra da Lousã, por sua vez, não fica atrás em diversidade e beleza. Nas encostas e vales cobertos por florestas densas, predominam espécies autóctones como o sobreiro, o castanheiro e o carvalho, além de matos mediterrânicos e bosques mistos que oferecem abrigo e sustento à fauna local. Durante a primavera, estas áreas são pinceladas por cores vibrantes, com flores silvestres surgindo timidamente entre rochas e raízes Atualmente, mês de março, a urze está a atingir o seu auge de cor púrpura.
Ao fotografar a vida selvagem, como os javalis aqui retratados, sente-se inevitavelmente um misto de aventura e responsabilidade. A adrenalina de nos aproximarmos silenciosamente, a paciência necessária para aguardar o momento certo e o respeito absoluto pelos animais e pelo seu habitat são aspectos essenciais para qualquer fotógrafo ou amante da natureza. Este respeito não é apenas uma regra prática; é uma filosofia de vida, um compromisso constante com a conservação.
É igualmente essencial reconhecer que a interação humana com o ambiente deve ser discreta e consciente. Os javalis, como outros animais selvagens, devem ser admirados à distância, sem interferências que possam alterar negativamente o seu comportamento natural. A nossa presença nestes espaços naturais deve sempre pautar-se pelo menor impacto possível, para que possamos continuar a desfrutar da beleza e autenticidade da vida selvagem.
Ao regressar desta manhã, mais uma de incursão pela Serra da Lousã, com a fotografia segura na máquina fotográfica e no seu cartão de memória, ficou claro para mim que imagens como esta têm o poder não apenas de encantar, mas também de educar. São um convite a refletir sobre o nosso papel na proteção dos ambientes naturais, especialmente em locais como a Serra da Lousã, que ainda guardam tantos tesouros da biodiversidade em Portugal e que talvez estejamos perto de ser das últimas gerações a poder testemunha-lo.
Que possamos, todos, continuar a percorrer estes caminhos com humildade e respeito, sempre conscientes da nossa responsabilidade em preservar estes ecossistemas, garantindo que as futuras gerações possam também vivenciar momentos tão ou mais especiais como este encontro com estes dois javalis da Serra da Lousã.
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Salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica)
Obtive esta imagem da salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica), um anfíbio endémico que se distribui ao longo do noroeste da Península Ibérica, presente portanto, em Portugal e Espanha, neste mês de fevereiro na Ribeira de Pera, em Castanheira de Pera.

Distribuição atual da Salamandra-lusitânica – Wikipedia
Sobre esta espécie, podemos destaca-la pela sua cauda longa, o que em adultos pode corresponder a dois terços do comprimento total do corpo. A pele da salamandra-lusitânica é brilhante, apresentando duas linhas dorsais de tonalidade dourada ou cobre que se unem numa única linha ao longo da cauda. Um facto interessante, é que quando se sente ameaçada, esta consegue soltar a cauda, e posteriormente regenera-la. É o único salamandrídeo ibérico com esta capacidade extraordinária.
A salamandra-lusitânica habita em regiões com precipitação superior a 1000 mm e em locais até cerca dos 1400 metros de altitude. Ocupa preferencialmente áreas com vegetação abundante e com elevada humidade, geralmente nas proximidades de ribeiras e cursos de água. A Ribeira de Pera, localizada na Serra da Lousã (Castanheira de Pera), oferece assim o habitat ideal para esta espécie. Sobre a Ribeira de Pera, esta é caracterizada por linhas de água profundamente encaixadas e vegetação ripícola bem conservada, o que faz com que estas formem condições essenciais para a reprodução da salamandra-lusitânica, reprodução que ocorre entre maio e novembro. Durante este período, a fêmea deposita cerca de 15 ovos em locais protegidos e húmidos, como por baixo de pedras ligeiramente submersas, o que era o caso nesta fotografia, ou em concavidades nas margens dos ribeiros.
Indo ao encontro das ameaças, a salamandra-lusitânica enfrenta um risco e uma luta pela sua sobrevivência. A destruição e alteração dos seus habitats naturais, a poluição dos cursos de água e os incêndios florestais são todos eles fatores que contribuem para um declínio das populações desta espécie. Resultado destas pressões, a salamandra-lusitânica está classificada como “vulnerável” no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, o que reforça assim a necessidade de implementar medidas de conservação e proteção dos seus habitats naturais.
Com esta observação na Ribeira de Pera, queria destacar uma vez mais este ecossistema ribeirinho, resultado também ele de um trabalho que vai colhendo frutos e assim garantindo a continuidade não apenas destas espécies endémicas, como também na manutenção de toda uma biodiversidade local.
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Galerias Ripícolas: Guardiãs da Biodiversidade Hídrica
Cada vez que faço uma incursão pelas galerias ripícolas da Ribeira de Pera, Cavalete ou das Quelhas, ou mesmo de outro curso de água idêntico em Portugal, é com uma enorme admiração e respeito que o faço. Essencialmente pelo conhecimento dos nossos antepassados no aproveitamento das galerias ripícolas.
As galerias ripícolas são ecossistemas imprescindíveis para a biodiversidade e sustentabilidade ambiental dos nossos cursos de água, em específico nos cursos ao longo das ribeiras que acima mencionei. Estas, digamos que formações vegetais, são compostas por uma diversidade de espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas que desempenham um papel crucial tanto na estabilidade das margens, como na qualidade da própria água e na manutenção da fauna e da flora.
A presença das galerias ripícolas está intimamente ligada à diversidade climática e geográfica de um território. Estas “comunidades vegetais” variam em composição, dependendo da região do país e das condições hidrológicas dos cursos de água que as sustentam. Por exemplo, tanto a norte como no centro do país, as galerias ripícolas são dominadas maioritariamente por espécies como o amieiro (Alnus glutinosa), o freixo (Fraxinus angustifolia) e o salgueiro (Salix spp.). Nas regiões mais secas, ou seja a sul do país, encontram-se espécies mais adaptadas a climas mediterrânicos, como o tamargueiro (Tamarix spp.) e algumas variedades de choupo (Populus spp.).
A importância destas galerias ripícolas vai muito além da sua função ecológica mais imediata. Atuam como barreiras naturais contra a erosão, prevenindo o assoreamento dos cursos de água e assim, garantindo uma melhor qualidade da água. A vegetação ripícola também desempenha um papel crucial na regulação térmica das águas, fornecendo sombra e contribuindo para a manutenção das temperaturas ideais para diversas espécies aquáticas, no caso da Ribeira de Pera, a truta. Pegando na truta, ainda acrescentar que as galerias ripícolas são um habitat para uma vasta gama de espécies animais, incluindo aves, mamíferos, répteis e anfíbios. Muitos destes animais dependem destes ecossistemas para a sua alimentação, reprodução e proteção contra os seus predadores. Espécies emblemáticas como a lontra (Lutra lutra) e diversas aves ripícolas, como o guarda-rios (Alcedo atthis), encontram refúgio nestes locais, tornando-as essenciais para a conservação da biodiversidade.
Não queria no entanto deixar de manifestar a minha preocupação com as diversas ameaças que estes locais enfrentam. A destruição e a fragmentação destas formações devido a diversos fatores como a urbanização, agricultura, construção de infraestruturas hídricas, no entanto e principalmente, o abandono. Todos estes fatores vão comprometendo a sua integridade ao longo do tempo. A “introdução” de espécies invasoras, como a acácia (Acacia spp.) e o ailanto (Ailanthus altissima), também representam desafios significativos. Assim, a proteção e recuperação de galerias ripícolas requerem uma abordagem integrada e multidisciplinar com medidas que implementem uma gestão sustentável, como corredores ecológicos, a reabilitação das margens degradadas e a remoção de espécies exóticas invasoras, ações fundamentais para garantir a sua preservação.
Os mosaicos florestais, os vários projetos de reflorestação com espécies autóctones, assim como os condomínios de aldeia, têm sido importantes na recuperação da funcionalidade ecológica destes sistemas.

Ribeira do Cavalete – Castanheira de Pera | Serra da Lousã
Para além das iniciativas quer de um âmbito governamental quer institucional, é essencial também envolver as comunidades locais nesta proteção destes habitats. Educar sobre a importância destas galerias ripícolas e a promoção de boas práticas de uso da terra irão contribuir significativamente para uma preservação a longo prazo. Programas de pedestrianismo, educativos junto das escolas, podem incentivar a uma participação ativa na monitorização e na proteção destes ecossistemas.
Para concluir, dizer uma vez mais que as galerias ripícolas desempenham um papel imprescindível na manutenção da biodiversidade, na proteção dos recursos hídricos e na estabilidade ecológica dos nossos cursos de água. No entanto, para que continuem a cumprir estas funções, é fundamental implementar estratégias eficazes de conservação e gestão das mesmas. Uma conjugação de esforços entre entidades governamentais, académicas e sociedade civil é um objetivo a seguir para assegurar a perenidade destes ecossistemas, garantindo um futuro mais sustentável para os rios e ribeiras do nosso país.
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Musgo: O Pequeno Gigante dos Ecossistemas
O musgo acaba por ser uma planta discreta, mas com uma enorme importância ecológica e ambiental. O musgo pertencente ao grupo das briófitas, é uma planta não vascular ou seja não possui raízes verdadeiras, caules ou flores. Utiliza rizoides para se fixar nas superfícies como as rochas, troncos das árvores ou mesmo nos solos. São estas características únicas permitem que o musgo prospere em condições mais adversas, desde as florestas tropicais e húmidas até a ambientes frios, tornando-o num verdadeiro sobrevivente da natureza.
Do ponto de vista mais científico, os musgos são um “ser interessante”. Como são plantas não vasculares e não possuem tecidos especializados para transporte de água e nutrientes, como a xilema e a floema, dependem assim da difusão e absorção direta através das suas superfícies foliares. É esta simplicidade estrutural que permite que cresçam numa ampla gama de habitats, como acima já mencionei.
De acordo com Goffinet e Shaw, no livro Bryophyte Biology, os musgos surgiram há cerca de 450 milhões de anos e foram pioneiros na colonização de ambientes terrestres. A sua capacidade de sobreviver nos solos mais pobres, nas rochas e até em superfícies artificiais, realça a sua resiliência e adaptabilidade. Mais, o musgo contribui significativamente para os ciclos de carbono e nitrogénio, ajudando a armazenar carbono em ambientes como as turfeiras, tornando-os aliados importantes no combate às mudanças climáticas.
Sempre tive uma relação especial com o musgo. Quando era miúdo, admito, que pelo Natal como era hábito em muitas aldeias por todo o país, lá ia apanhar o musgo para enfeitar o presépio. Os tempos eram outros, a sustentabilidade há época era muito maior que a “comercial” nos dias de hoje. Os tapetes verdes e macios dos musgos são um convite para senti-lo nas mãos. Há algo no musgo que evoca tranquilidade. Talvez seja no facto de o mesmo crescer “ali”, silenciosamente, sem necessidade de atenção ou ostentação, mas ainda assim transformando o ambiente em todo o seu redor. Adiante, os anos passaram e, esta admiração apenas cresceu. O musgo não apenas é bonito e fotografável, o musgo é funcional. É funcional pela maneira como retém a água. Estudos mostram que os musgos podem absorver até 20 vezes o seu peso em água, o que ajuda a prevenir tanto a erosão do solo como ainda a regular a humidade nos ecossistemas mais frágeis. Nos locais ricos em musgos, como as florestas mais temperadas, são considerados verdadeiros reservatórios de água. Além disto, o musgo é ainda um indicador de qualidade ambiental. Como é sensível à poluição e às mudanças na acidez do ambiente, a sua presença, ou ausência, podem indicar informações importantes sobre a saúde ou não, de um ecossistema.
Um Pequeno Gigante a Ser Preservado
O musgo é uma planta que, embora muitas vezes ignorada, carrega consigo uma enorme relevância, tanto ecológica, ambiental, cultural como até emocional. A ciência tem vindo a confirmar o seu papel nos ciclos da natureza. Devemos, portanto, tratar desta espécie com o respeito que merece. Preservar os musgos e seus habitats não é apenas uma questão ambiental como também um compromisso ético com o equilíbrio da vida e do seu ecossistema.
Valorizar plantas como os musgos é fundamental para garantir um futuro mais sustentável. Afinal, muitas vezes, é nos pequenos detalhes que reside a verdadeira grandeza.
Boas fotografias!

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