
Literacia Digital, entre a Ligação e a Compreensão
Além da Literacia Digital…
Vivemos tempos paradoxais no Mundo em geral e em Portugal em particular. Ao mesmo tempo que começo a escrever estas primeiras frases, penso de imediato que nunca como antes estivemos tão conectados, com taxas de penetração de internet e utilização de dispositivos móveis que rivalizam com as economias mais desenvolvidas. No entanto, esta facilidade de acesso à informação não se tem traduzido automaticamente em conhecimento, e muito menos em sabedoria. O desafio premente que enfrentamos hoje não é o da exclusão digital no seu sentido mais técnico, mas sim no de uma iliteracia funcional no ambiente online que deixa vastas franjas da população, desde os jovens aos mais idosos, vulneráveis à desinformação. O combate a este fenómeno exige uma mudança de paradigma. Precisamos de deixar de ver o digital apenas como uma ferramenta utilitária e passar a encará-lo como um espaço cívico onde a verdade e a mentira competem ferozmente pelo atrair de atenção.
A desinformação, entendida como uma narrativa comprovadamente falsa ou enganosa criada e disseminada para obter vantagens económicas, políticas ou para enganar deliberadamente o público, tornou-se uma ameaça sistémica à nossa democracia. Em Portugal, onde o consumo de notícias através das redes sociais é elevado, o perigo reside na velocidade com que o falso se propaga. É fundamental distinguir, como nos ensinam as orientações europeias para a educação, entre a informação errada, partilhada sem intenção de dolo, e a desinformação calculada, que visa manipular opiniões, emoções e ações. Esta distinção não é meramente académica. Define a forma como devemos educar as novas gerações. Não basta ensinar usar um computador, é imperativo ensinar a questionar o que aparece nos aparece nos ecrãs. A literacia digital deve ser compreendida como a capacidade para aceder, gerir, compreender, integrar, comunicar, avaliar, criar e divulgar informações de forma segura e adequada.
O sistema educativo português tem feito esforços interessantes para integrar estas competências no currículo, nomeadamente através da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento e de referenciais emanados pela Direção-Geral da Educação. No entanto, a tarefa, obviamente é hercúlea. Os professores, muitas vezes sobrecarregados, são chamados a ser a primeira linha de defesa contra uma indústria de desinformação que utiliza algoritmos sofisticados para criar câmaras de eco e bolhas de filtro *definição no final do artigo. Estas bolhas reforçam crenças preexistentes e isolam os indivíduos de opiniões contrárias, polarizando a sociedade. A escola deve ser o sítio onde se furam estas bolhas, promovendo o contacto com o contraditório e o desenvolvimento do pensamento crítico. Como sugerem os especialistas, técnicas como a “leitura lateral”, verificar o que outras fontes dizem sobre o mesmo tema e a “desmistificação prévia”, que vacina os alunos contra as táticas de manipulação antes que eles sejam expostos a elas, são essenciais na “caixa de ferramentas” pedagógica moderna.
Contudo, não podemos depositar toda a responsabilidade na escola. A literacia digital enfrenta desafios semelhantes aos da literacia financeira, onde estudos indicam lacunas significativas no conhecimento da população adulta. Tal como é necessário saber gerir o orçamento familiar para não cair em fraudes financeiras, é crucial saber gerir a dieta informativa para não cair em fraudes intelectuais ou ideológicas. A desinformação tem também uma componente económica forte. Os criadores de “fake news” lucram com cada clique, explorando as nossas emoções mais básicas como o medo ou a indignação. Se os portugueses não compreenderem que a sua atenção é uma moeda de troca, continuarão a ser peões num jogo de xadrez onde a verdade é a primeira baixa.
O futuro do combate à desinformação em Portugal passa, inevitavelmente, pela capacitação transversal da sociedade. Precisamos de programas de literacia digital que cheguem aos seniores, frequentemente alvos de burlas online e de desinformação política, e que continuem a reforçar a resiliência dos jovens. A tecnologia, com a ascensão da inteligência artificial e das “deepfakes“, vídeos ou áudios criados por computador que imitam pessoas reais, tornam cada vez mais difícil distinguir o real do “photoshop”. Neste cenário, o ceticismo saudável e a verificação de factos deixarão de ser competências jornalísticas para se tornarem deveres de cidadania.
Esta guerra pela verdade terá de ser ganha com educação, com o saber e com legitimidade intelectual de cada um de nós. Temos as infraestruturas e temos os diagnósticos feitos. O que necessitamos é de uma mobilização para a literacia digital, encarando-a como um desígnio estratégico. Só assim poderemos garantir que a revolução digital serve para nos empoderar enquanto cidadãos e fortalecer a democracia, não manipulando, não dividindo.
A literacia digital não é apenas sobre saber mexer nas máquinas com ecrãs, é sobre saber pensar num mundo dominado por elas. É urgente formar cidadãos digitais que participem de forma ativa, contínua e responsável, tanto online como offline, protegendo os valores democráticos que demorámos tanto a conquistar.
…..
CÃMARAS DE ECO E BOLHAS DE FILTRO
BOLHAS DE FILTRO
Recolha de Dados: As plataformas registam cada interação: cliques, gostos (likes), tempo de visualização, partilhas e pesquisas.
Análise de Padrões: A inteligência artificial (IA) usa redes neuronais para prever os teus gostos com base em dados passados.
Filtragem de Conteúdo: O algoritmo oculta conteúdos que considera que não lhe interessam ou com os quais discorda, priorizando apenas o que confirma as tuas preferências.
Reforço contínuo: Quanto mais interage com um determinado tipo de conteúdo, mais a plataforma o alimenta, tornando a bolha mais estreita.
CÂMARA DE ECO
Viés de Confirmação: Os utilizadores tendem a procurar informações que confirmem as suas crenças preexistentes.
Seleção de Amigos: As pessoas tendem a seguir e interagir com quem partilha opiniões semelhantes, criando uma “rede entrelaçada” de pensamentos homogéneos.
Efeito de Ressonância: As opiniões divergentes são excluídas ou silenciadas, fazendo com que as mesmas ideias sejam repetidas e amplificadas, como um eco.
RESULTADO
Polarização: Ambientes online onde pontos de vista divergentes não têm espaço, impulsionando assim o extremismo.
Limitação da Realidade: Os utilizadores recebem uma percepção limitada da realidade, restringindo a diversidade informativa.
Criação de Realidades Paralelas: Diferentes grupos de utilizadores vivem em mundos informacionais distintos, dificultando o consenso social.
Leia também:
“Uma bateria de “Peso” na Inovação e no Futuro da Energia”
👉https://www.jorgenunes.net/uma-bateria-de-peso-na-inovacao-e-no-futuro-da-energia/
“Dia Mundial da Fotografia e o poder de congelar o tempo”
👉https://www.jorgenunes.net/dia-mundial-da-fotografia-e-o-poder-de-congelar-o-tempo/
“Porque fotografo em formato RAW?”
👉https://www.jorgenunes.net/porque-fotografo-em-formato-raw/
“A Sustentabilidade Hídrica em Castanheira de Pera”
👉https://www.jorgenunes.net/a-sustentabilidade-hidrica-em-castanheira-de-pera/
“Serra da Lousã: Um Instante de Natureza e Biodiversidade”
👉https://www.jorgenunes.net/serra-da-lousa-um-instante-de-natureza-e-biodiversidade/
“Galerias Ripícolas: Guardiãs da Biodiversidade Hídrica”
👉https://www.jorgenunes.net/galerias-ripicolas-guardias-da-biodiversidade-hidrica/
“Musgo: O Pequeno Gigante dos Ecossistemas”
👉https://www.jorgenunes.net/musgo-o-pequeno-gigante-dos-ecossistemas/


