
O Imperativo da Coesão Territorial e da Descentralização em Portugal
Basta um olhar atento neste mapa que acompanha este texto para compreendermos, com uma clareza dolorosa, a assimetria estrutural que define o Portugal contemporâneo. Observamos um país que, demográfica e economicamente, se encontra perigosamente inclinado para o litoral, com uma concentração esmagadora nas áreas metropolitanas. Não é novidade, mas quando constatamos que o distrito de Lisboa concentra 21,9% da população e o do Porto 17,3%, percebemos que quase 40% dos portugueses vivem numa ínfima parte do nosso território. Se a estes somarmos Setúbal (8,4%), Braga (8,1%) e Aveiro (6,8%), o cenário agrava-se. Já no extremo oposto, o interior profundo sangra demograficamente, com Portalegre a reter apenas 1,0%, Bragança 1,1% e a Guarda 1,3% da nossa população. Esta não é apenas uma curiosidade estatística, é o retrato de um modelo de desenvolvimento esgotado que exige uma reflexão profunda sobre a urgência da coesão territorial e da descentralização.
Existe um paradoxo cruel e persistente na forma como temos gerido o nosso desenvolvimento ao longo das últimas décadas. A Europa financia a coesão, mas Portugal centraliza. Desde a nossa adesão ao projeto europeu, o país tem sido recetor de milhares de milhões de euros em fundos estruturais e de coesão, cujo propósito primordial é, precisamente, esbater as desigualdades regionais e harmonizar o nível de vida em todo o território. Contudo, a arquitetura do Estado português, profundamente centralista, tem atuado como um funil. Os fundos chegam, desenham-se autoestradas e infraestruturas, mas o poder de decisão, a atração de talento, as sedes das grandes empresas e a máquina burocrática teimam em concentrar-se na capital. Criámos um país a duas velocidades, onde o investimento europeu, desenhado para unir, acaba muitas vezes por ser absorvido por uma engrenagem que perpetua a atração gravitacional do centro em detrimento da periferia.
Para invertermos esta marcha rumo a este esvaziamento do interior, a desburocratização assume-se como um passo absolutamente vital. O peso de um Estado centralizado traduz-se, invariavelmente, numa máquina administrativa lenta, cega às especificidades locais e asfixiante para quem tenta empreender fora dos grandes centros urbanos. Estamos a ver uma vez mais com a Tempestade Kristin, já o tínhamos visto com os incêndios de 2017. Um investidor que queira fixar uma unidade industrial em Beja, que alberga apenas 1,4% da população, ou um jovem agricultor que pretenda inovar em Vila Real (1,7%), não podem estar sujeitos a processos de licenciamento e aprovação que aguardam meses por um carimbo num qualquer gabinete em Lisboa, despachado por quem muitas vezes desconhece a realidade daquele território. Desburocratizar significa transferir competências, simplificar processos e confiar na capacidade de gestão de quem está no terreno.
Esta confiança leva-nos diretamente à imperativa valorização das identidades territoriais locais. O poder local democrático, materializado nos Municípios e nas Juntas de Freguesia, é a espinha dorsal da nossa democracia de proximidade. São os presidentes de junta e de câmara quem primeiro conhece as carências das suas populações, quem identifica o potencial económico latente e quem lida diretamente com os desafios diários dos cidadãos. Descentralizar não é apenas transferir encargos, é transferir os respetivos recursos financeiros e o poder de decisão para estas autarquias. A verdadeira descentralização reconhece que Portugal não é um bloco homogéneo. A identidade territorial de Trás-os-Montes exige políticas agrícolas e de fixação populacional radicalmente diferentes das estratégias de gestão turística necessárias no Algarve, que representa 4,5% da população. Reconhecer e potenciar estas identidades é a chave para criar polos de desenvolvimento autónomos e sustentáveis.
Quando alargamos o olhar para o contexto europeu, percebemos rapidamente que as nações mais prósperas e igualitárias são, regra geral, aquelas que apostaram numa forte descentralização e na autonomia regional. Na Alemanha, em Espanha ou nos países nórdicos, as regiões são verdadeiros motores de competitividade. No mercado global atual, já não são apenas os países que competem entre si pela atração de investimento e talento, mas sim as regiões. A competitividade territorial de Portugal está severamente manietada pela nossa incapacidade de libertar o potencial das nossas sub-regiões. Pessoalmente, acho que o comboio das Regiões já passou, no entanto temos as CIM’s e até já se fala nos Governos Civis de outrora. Ora, se estas entidades tivessem a autonomia e os instrumentos fiscais e administrativos adequados, poderiam desenhar estratégias agressivas e altamente especializadas para captar investimento estrangeiro, criar clusters tecnológicos ligados às suas universidades locais e desenvolver uma marca territorial forte no espaço europeu. Não esquecendo a indústria e a agricultura.
Promover a coesão territorial não é, de forma alguma, e quero deixar claro isto, um ato de caridade do litoral para com o interior. É uma questão de sobrevivência nacional e de inteligência estratégica. A macrocefalia de Lisboa e Porto está a gerar custos sociais e económicos insustentáveis, visíveis na crise dramática da habitação, no colapso das infraestruturas de transporte urbano e na perda de qualidade de vida nestas metrópoles. Ao mesmo tempo, o abandono do interior resulta no desaproveitamento de recursos naturais, na desertificação humana e na terrível vulnerabilidade aos incêndios florestais, como tragicamente testemunhamos ano após ano.
Olhar para este mapa devia-nos provocar um sobressalto cívico. O futuro de Portugal exige uma coragem reformista que rompa com séculos de centralismo. Precisamos de um Estado mais ágil, que confie nos seus Municípios e Juntas de Freguesia, que celebre a diversidade da sua identidade territorial e que utilize os fundos europeus não para “engordar” ainda mais as áreas urbanos já saturadas, mas para “irrigar” todo o país. Só através de uma verdadeira competitividade territorial e de uma descentralização efetiva poderemos endireitar este país inclinado, construindo um Portugal onde nascer em Portalegre, Évora, Bragança ou Castanheira de Pera, ofereça exatamente as mesmas oportunidades de futuro que nascer nas margens onde desaguam o Tejo ou o Douro.
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